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PORTAL DO AUTOMÓVEL




Quinta-feira, 27.07.06

O «blue jeans» das 4 Rodas

Com a "Quatrelle", nome pelo qual viria a tornar-se popularmente conhecida, a Renault pretendeu criar um veículo polivalente e barato, logo popular, e, não menos importante, concorrer com o rival Citroën 2CV.
Ao contrário do Volkswagen e do Mini, que partiram da genialidade de dois grandes senhores da história do automóvel, o Renault 4 é produto do trabalho de uma equipa e da vontade de um homem: Pierre Dreyfus, na altura presidente da Regie Renault.

Olhando para o panorama social da Europa de então, o responsável máximo da marca francesa pediu ao seu departamento criativo "um carro diferente e cómodo", que servisse "para todo o trabalho e com quinta porta traseira", capaz de agradar "a todos os clientes do mundo com poucos recursos".
"Quero um veiculo que seja como um 'blue jeans', totalmente versátil, para toda a ocasião e que não passe de moda...", sintetizou.
Este veículo, que além de versátil pretendia-se intemporal e adaptável a todas as ocasiões, receberia o nome de Renault 4.
Com concepção simples, fiável e versátil nos mais variados tipos de terreno, o R4 possuia ainda uma estética fortemente personalizada. Mas trazia consigo também uma série de conceitos inovadores na industria automóvel: o modo de abertura da quinta porta, um plano de carga isento de arestas, um circuito de refrigeração hermético e selado e a supressão dos pontos de lubrificação que facilitavam a sua manutenção.


O sucessor da "joaninha"

O número "4" parece ter um carácter mágico para o construtor francês. É que pouco tempo depois de terminada a II Guerra Mundial, a nacionalizada Renault lançou um modelo que gozou de enorme simpatia, o Renault 4 CV, vulgarmente conhecido por "joaninha".
Nos finais dos anos 50, o Renault 4 CV custava cerca de 399 mil francos franceses e o Citroën 2 CV, 346 mil. Uma das premissas do caderno de encargos do novo automóvel era que o seu preço se situasse nos 350 mil francos.

Da quinta porta à ausência de eixos

O "Projecto 350", designação dada ao caderno de encargos da sua concepção, apontava para uma viatura robusta, mais confortável e mais ampla que o 2 CV, mas igualmente de concepção simples, fiável e versátil nos mais variados tipos de piso.
Como qualquer modelo que pretenda fazer história, o carro deveria ser dotado de uma estética fortemente personalizada e de conceitos inovadores. O modo de abertura da quinta porta e o plano de carga isento de arestas cumpriram a função em termos funcionais, acabando por ser adoptado por muitos outros modelos.
Mas, para aqui chegar, os técnicos depararam-se com bastantes desafios. Para tornar o habitáculo mais amplo rapidamente concluiram que tanto o motor como a transmissão deveriam ser dianteiros. Na suspensão traseira aplicaram-se barras de torção transversais, rodas independentes e amortecedores numa curiosa posição quase horizontal. Intrigante - e provavelmente ainda hoje inédito - é o facto de a distância entre eixos ser superior em 48 mm do lado direito.



Engenhoso e robusto

Estes simples e aparentemente rudimentares truques de engenharia mecânica, que se manteriam praticamente inalterados durante toda a vida do Renault 4, seriam responsáveis pelo à-vontade e robustez demonstradas em qualquer tipo de piso e pelo comportamento do veículo, independentemente da carga que transportasse.
Depois de estudadas as possibilidades de criar um motor de dois cilindros com cerca de 600 cc, a escolha recaiu no propulsor de 747 cc que equipava o "joaninha"; era a mais económica e fiável das soluções. A caixa de três velocidades tinha apenas a segunda e a terceira sincronizadas, com o respectivo comando numa posição em tudo semelhante à do dois cavalos...
Para além de suspensões flexíveis, o R4 possui ainda mais duas inovações: um circuito de refrigeração hermético e selado, com um líquido especial colocado uma única vez na altura da montagem. Foi igualmente o primeiro a suprimir os pontos de lubrificação, graças à adopção de rótulas esféricas e de juntas e articulações em borracha e grafite. Para a manutenção periódica da viatura, bastava portanto verificar e atestar apenas o nível do óleo do motor e da caixa de velocidades.
E para andar um pouco de gasolina, claro...



Aparência "bizarra"

Os primeiros protótipos entraram em testes nos finais de 1959. O nome, "Renault 4", deve-se aos 4 cavalos fiscais que possuía no seu país de origem. Os ensaios decorreram nas mais variadas situações, desde o mau piso da Sardenha ao frio do estado norte-americano do Minesota, passando pelo calor árido do deserto do Sahara.
Quando o empregado de uma estação de serviço norte-americana viu o novo modelo, terá mesmo exclamado: "que carro se esconde por debaixo desta estranha camuflagem?"
E a aparência era mesmo bastante inédita, deselegante e até bizarra para os cânones estilísticos da altura. Principalmente devido à secção traseira quase vertical.
Desde logo, o Renault 4 evidenciou uma clara versatilidade para todo o tipo de terreno. Mesmo se a fraca potência do motor e a tracção dianteira pareciam factores inibidores de grandes aventuras.
A reacção dos concessionários e representantes da marca foi de total desagrado e descrédito: um carro com aquela forma nunca se venderia, achavam eles!

Forte e inédita campanha promocional

O ano de 1961 assinala o fim da produção do Renault 4 CV (joaninha). Escolhidos para o sucederem foram o Renault 3 e o Renault 4.
A 3 de Agosto é oficialmente produzido o primeiro R4.
Na apresentação à Imprensa, foram propositadamente escolhidos os percursos mais duros. As opiniões dificilmente poderiam ser mais favoráveis.
O primeiro contacto com o público aconteceu no Salão Automóvel de Paris desse ano, através de uma inédita acção promocional: na exposição, o carro podia ser experimentado num circuito de todo o terreno contíguo ao salão; em Paris, os franceses eram convidados a dar uma volta com o carro, por onde quisessem, ao longo das ruas da capital.
Saliente-se que este tipo de lançamento de um novo automóvel não era habitual na altura, tal como aconteceria com a criativa e deveras apelativa campanha publicitária.

Carisma, moda e sucesso

As inúmeras versões que conheceu ao longo dos 31 anos de produção, atestam bem a aceitação que o carro teve... e ainda tem!
O carisma, a versatilidade do espaço e de condução e uma fácil e pouco dispendiosa manutenção mantêm-se como as principais razões do seu sucesso.
Actor de cinema, viajante empedernido, arma de trabalho, companheiro de férias, missionário em África, camelo no deserto e aristocrata em Paris, Londres ou Roma, a tudo e a todos o R4 se adaptou.
Em finais dos anos 90 ainda competia no Mundial de Ralis, conduzida pelo piloto português António Pinto dos Santos. Pela invulgaridade era um dos veiculos mais procurados e, apesar das prestações modestas, chegou ao fim da maioria das provas em que participou.
O "blue jeans" de Pierre Dreyfus cumpriu a sua função, impondo uma moda e um estilo de que muitos poucos automóveis se podem orgulhar de ter conseguido!
CURIOSIDADES!

* Os planos daquela que seria a segunda geração do R4, começaram ainda antes de a primeira ter sido lançada. Ousadamente os primeiros protótipos apresentavam uma orientação estética oposta ao grande sucesso estilístico do mercado francês da altura: o Renault Dauphine.
* Inicialmente existiu também a versão de 603 cc e 22,5 cv, dotada do mesmo bloco motor mas com cilindros de menor diâmetro. O Renault 3 CV, como foi designado devido à sua potência fiscal, destinava-se ao mercado francês e seria o concorrente mais directo do Citroen 2 CV.

* Em paralelo com a versão de passageiros, foi criada uma outra essencialmente de carga: a Fourgonette.
Para além da originalidade do conceito de pequeno furgão, a R4F inovou também com uma pequena abertura na parte traseira do tejadilho, designada "girafon", porque, nos primeiros anúncios ao modelo, era utilizada uma girafa para demonstrar a utilidade desta porta no transporte de objectos mais longos. Houve ainda uma variante de passageiros do R4F, hoje bastante procurada.

* A sua plataforma versátil deu também lugar a sedutoras ou estranhas formas de carroçaria, desde modelos descapotáveis, jipes (chegou a existir uma versão de quatro rodas motrizes), carrinha de caixa aberta e até um pseudo Fórmula 1!



* Tal como o carro em si a publicidade era igualmente simples mas eficaz

* Com mais de oito milhões de unidades é um dos carros mais vendidos de sempre.

* Menos de sete anos após o lançamento, já o construtor procurava um sucessor. A intenção nunca foi integralmente assumida, provavelmente porque o Renault 6, lançado em 1968, nunca conheceu a mesma popularidade do Renault 4.



 * Um comunicado da altura descrevia assim o modelo: "não interessa o quanto se puxe por este motor, ele nunca demonstra stress".
* Conheceu inúmeras versões. Uma das mais elegantes surgiu cerca de dois anos depois e foi denominada Parisiense.
A promoção, lançada em conjunto com a revista Elle, foi um claro piscar de olhos à potencial clientela feminina, ou não tivesse parte da carroçaria revestida com um tecido em tom palha ou padrão escocês.

* Se quisermos encontrar um paralelo de sucesso na história do construtor francês, o exemplo mais próximo é o do Renault 5 lançado em 1972.
Importa referir este modelo devido à história curiosa que rodeou a sua concepção, que está directamente relacionada com o Renault 4.
O R5 nasceu quando um dos projectistas da marca francesa, encontrou, por acaso, uns esquemas do R4. Começando a desenhar por cima dos esboços, limando as arestas, subitamente reparou que tinha criado um novo carro. Era não apenas mais baixo e mais arredondado como, apesar de mais compacto, conseguia ser mais amplo. Os responsáveis adoraram o resultado e bastaram somente dois dias para se construir uma maqueta, em tamanho real, enquanto, comparativamente, tinham sido necessários 27 modelos para se chegar à forma definitivado R6!


* A exemplo do Volkswagen e do Mini, o Renault 4 chegou até aos nossos dias. A sua produção foi descontinuada em 1992. Em 1997 a Renault apresentou o Kangoo, estabelecendo uma ponte com o seu modelo mítico, o R4. Para além da forma, de novo uma porta fazia a diferença. Desta vez era a lateral. Curiosamente, o Kangoo aproxima-se da forma e do conceito de outro carro lançado pouco tempo antes. Talvez não por acaso esse carro é um Citroën...

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